Nov
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2008
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LITERATURA BRASILEIRA

A Mágoa do infeliz Cosme

 de Machado de Assis

 

 

Publicado originalmente em Jornal das Famílias 1875

I

Imensa e profunda foi a mágoa do infeliz Cosme. Depois de três anos de não interrompida

ventura, faleceu-lhe a mulher, ainda na flor da idade, e no esplendor das graças com que

a dotara a natureza. Uma rápida moléstia a arrebatou aos carinhos do esposo e à

admiração de quantos tiveram a honra e o prazer de praticar com ela. Quinze dias apenas

esteve de cama; mas foram quinze séculos para o infeliz Cosme. Por cúmulo de

desgraças, expirou longe dos olhos dele; Cosme saíra para ir buscar a solução de um

negócio; quando chegou à casa achou um cadáver.

Dizer a aflição em que este acontecimento lançou o infeliz Cosme pediria outra pena que

não a minha. Cosme chorou logo no primeiro dia todas as suas lágrimas; no dia seguinte

tinha os olhos exaustos e secos. Os seus numerosos amigos contemplavam com tristeza

o rosto do infeliz e ao lançar a pá de terra sobre o caixão já depositado no fundo da cova,

mais de um recordou os dias que passara ao pé dos dois esposos, tão queridos um do

outro, tão venerados e amados dos seus íntimos.

Cosme não se limitou ao encerramento usual dos sete dias. A dor não é costume, dizia

ele aos que o iam visitar; sairei daqui quando puder arrastar o resto dos meus dias. Ali

ficou durante seis semanas, sem ver a rua nem o céu. Os seus empregados iam prestarlhe

contas, a que ele, com incrível esforço, prestava religiosa atenção. Cortava o coração

ver aquele homem ferido no que havia de mais caro


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Nov
20
2008
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A Senhora do Galvão, de Machado de Assis

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A Senhora do Galvão

 

 

Fonte:

 

 

 de Machado de Assis

 

 

ASSIS, Machado de. Volume de contos. Rio de Janeiro : Garnier, 1884.

 

 

 

A SENHORA DO GALVÃO

 

 

Começaram a rosnar dos amores deste advogado com a viúva do brigadeiro, quando

eles não tinham ainda passado dos primeiros obséquios. Assim vai o mundo. Assim se

fazem algumas reputações más, e, o que parece absurdo, algumas boas. Com efeito, há

vidas que só têm prólogo; mas toda a gente fala do grande livro que se lhe segue, e o autor

morre com as folhas em branco. No presente caso, as folhas escreveram-se, formando todas

um grosso volume de trezentas páginas compactas, sem contar as notas. Estas foram postas

no fim, não para esclarecer, mas para recordar os capítulos passados; tal é o método nesses

livros de colaboração. Mas a verdade é que eles apenas combinavam no plano, quando a

mulher do advogado recebeu este bilhete anônimo:

“Não é possível que a senhora se deixe embair mais tempo, tão escandalosamente,

por uma de suas amigas, que se consola da viuvez, seduzindo os maridos alheios, quando

bastava conservar os cachos…”

Que cachos? Maria Olímpia não perguntou que cachos eram; eram da viúva do

brigadeiro, que os trazia por gosto, e não por moda. Creio que isto se passou em 1853.

Maria Olímpia leu e releu o bilhete; examinou a letra, que lhe pareceu de mulher e

disfarçada, e percorreu mentalmente a primeira linha das suas amigas, a ver se descobria a

autora. Não descobriu nada, dobrou o papel e fitou o tapete do chão, caindo-lhe os olhos

justamente no ponto do desenho em que dois pombinhos ensinavam um ao outro a maneira

de fazer de dois bicos um bico. Há dessas ironias do acaso, que dão vontade de destruir o

universo. Afinal meteu o bilhete no bolso do vestido, e encarou a mucama, que esperava

por ela, e que lhe perguntou:

— Nhanhã não quer mais ver o xale?

Maria Olímpia pegou no xale que a mucama lhe dava e foi pô-lo aos ombros,

defronte do espelho. Achou que lhe ficava bem, muito melhor que à viúva. Cotejou as suas

graças com as da outra. Nem os olhos nem a boca eram comparáveis; a viúva tinha os

ombros estreitinhos, a cabeça grande, e o andar feio. Era alta; mas que tinha ser alta? E os

trinta e cinco anos de idade, mais nove que ela? Enquanto fazia essas reflexões, ia

compondo, pregando e despregando o xale.

— Este parece melhor que o outro, aventurou a mucama.

— Não sei… disse a senhora, chegando-se mais para a janela, com os dois nas mãos.

— Bota o outro, nhanhã.

A nhanhã obedeceu. Experimentou cinco xales dos dez que ali estavam, em caixas,

vindos de uma loja da rua da Ajuda. Concluiu que os dois primeiros eram os melhores; mas

aqui surgiu uma complicação — mínima, realmente — mas tão sutil e profunda na solução,

que não vacilo em recomendá-la aos nossos pensadores de 1906. A questão era saber qual

dos dois xales escolheria, uma vez que o marido, recente advogado, pedia-lhe que fosse

econômica. Contemplava-os alternadamente, e ora preferia um, ora outro. De repente,

lembrou-lhe a aleivosia do marido, a necessidade de mortificá-lo, castigá-lo, mostrar-lhe

que não era peteca de ninguém, nem maltrapilha; e, de raiva, comprou ambos os xales.

Ao bater das quatros horas (era a hora do marido) nada de marido. Nem às quatro,

nem às quatro e meia. Maria Olímpia imaginava uma porção de coisas aborrecidas, ia à

janela, tornava a entrar, temia um desastre ou doença repentina; pensou também que fosse

uma sessão do júri. Cinco horas, e nada. Os cachos da viúva também negrejavam diante

dela, entre a doença e o júri, com uns tons de azul-ferrete, que era provavelmente a cor do

diabo. Realmente era para exaurir a paciência de uma moça de vinte e seis anos. Vinte e

seis anos; não tinha mais. Era filha de um deputado do tempo da Regência, que a deixou

menina; e foi uma tia que a educou com muita distinção. A tia não a levou muito cedo a

bailes e espetáculos. Era religiosa, conduziu-a primeiro à igreja. Maria Olímpia tinha a

vocação da vida exterior, e, nas procissões e missas cantadas, gostava principalmente do

rumor, da pompa; a devoção era sincera, tíbia e distraída. A primeira coisa que ela via na

tribuna das igrejas, era a si mesma. Tinha um gosto particular em olhar de cima para baixo,

fitar a multidão das mulheres ajoelhadas ou sentadas, e os rapazes, que, por baixo do coro

ou nas portas laterais, temperavam com atitudes namoradas as cerimônias latinas. Não

entendia os sermões; o resto, porém, orquestra, canto, flores, luzes, sanefas, ouros, gentes,

tudo exercia nela um singular feitiço. Magra devoção, que escasseou ainda mais com o

primeiro espetáculo e o primeiro baile. Não alcançou a Candiani, mas ouviu a Ida Edelvira,

dançou à larga, e ganhou fama de elegante.

Eram cinco horas e meia, quando o Galvão chegou. Maria Olímpia, que então

passeava na sala, tão depressa lhe ouviu os pés, fez o que faria qualquer outra senhora na

mesma situação: pegou de um jornal de modas, e sentou-se, lendo, com um grande ar de

pouco caso. Galvão entrou ofegante, risonho, cheio de carinhos, perguntando-lhe se estava

zangada, e jurando que tinha um motivo para a demora, um motivo que ela havia de

agradecer, se soubesse…

— Não é preciso, interrompeu ela friamente.

Levantou-se; foram jantar. Falaram pouco; ela menos que ele, mas em todo o caso,

sem parecer magoada. Pode ser que entrasse a duvidar da carta anônima; pode ser também

que os dois xales lhe pesassem na consciência. No fim do jantar, Galvão explicou a

demora; tinha ido, a pé, ao teatro Provisório, comprar um camarote para essa noite: davam

 

 

 

os

 

 

 

 

Lombardos

 

. De lá, na volta, foi encomendar um carro…

 

— Os

 

 

 

Lombardos

 

? interrompeu Maria Olímpia.

 

— Sim; canta o Laboceta, canta a Jacobson; há bailado. Você nunca ouviu os

 

 

 

 

Lombardos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

?

 

— Nunca.

— E aí está por que me demorei. Que é que você merecia agora? Merecia que eu lhe

cortasse a ponta desse narizinho arrebitado…

Como ele acompanhasse o dito com um gesto, ela recuou a cabeça; depois acabou

 

 

 

de tomar o café. Tenhamos pena da alma desta moça. Os primeiros acordes dos

 

 

 

Lombardos

 

ecoavam nela, enquanto a carta anônima lhe trazia uma nota lúgubre, espécie de

 

 

 

 

Requiem

 

.

 

E por que é que a carta não seria uma calúnia? Naturalmente não era outra coisa: alguma

invenção de inimigas, ou para afligi-la, ou para fazê-los brigar. Era isto mesmo. Entretanto,

uma vez que estava avisada, não os perderia de vista. Aqui acudiu-lhe uma idéia: consultou

o marido se mandaria convidar a viúva.

— Não, respondeu ele; o carro só tem dois lugares, e eu não hei de ir na boléia.

Maria Olímpia sorriu de contente, e levantou-se. Há muito tempo que tinha vontade

 

 

 

de ouvir os

 

 

 

Lombardos. Vamos aos Lombardos

 

! Trá, lá, lá, lá… Meia hora depois foi vestirse.

 

Galvão, quando a viu pronta daí a pouco, ficou encantado. Minha mulher é linda,

pensou ele; e fez um gesto para estreitá-la ao peito; mas a mulher recuou, pedindo-lhe que

não a amarrotasse. E, como ele, por umas veleidades de camareiro, pretendeu concertar-lhe

a pluma do cabelo, ela disse-lhe enfastiada:

— Deixa, Eduardo! Já veio o carro?

Entraram no carro e seguiram para o teatro. Quem é que estava no camarote

contíguo ao deles? Justamente a viúva e a mãe. Esta coincidência, filha do acaso, podia

fazer crer algum ajuste prévio. Maria Olímpia chegou a suspeitá-lo; mas a sensação da

entrada não lhe deu tempo de examinar a suspeita. Toda a sala voltara-se para vê-la, e ela

bebeu, a tragos demorados, o leite da admiração pública. Demais, o marido teve a

inspiração, maquiavélica, de lhe dizer ao ouvido: “Antes a mandasses convidar; ficava-nos

devendo o favor.” Qualquer suspeita cairia diante desta palavra. Contudo, ela cuidou de os

não perder de vista — e renovou a resolução de cinco em cinco minutos, durante meia hora,

até que, não podendo fixar a atenção, deixou-a andar. Lá vai ela, inquieta, vai direito ao

clarão das luzes, ao esplendor dos vestuários, um pouco à ópera, como pedindo a todas as

coisas alguma sensação deleitosa em que se espreguice uma alma fria e pessoal. E volta

depois à própria dona, ao seu leque, às suas luvas, aos adornos do vestido, realmente

magníficos. Nos intervalos, conversando com a viúva, Maria Olímpia tinha a voz e os

gestos do costume, sem cálculo, sem esforço, sem ressentimento, esquecida da carta.

Justamente nos intervalos é que o marido, com uma discrição rara entre os filhos dos

homens, ia para os corredores ou para o saguão pedir notícias do ministério.

Juntas saíram do camarote, no fim, e atravessaram os corredores. A modéstia com

que a viúva trajava podia realçar a magnificência da amiga. As feições, porém, não eram o

que esta afirmou, quando ensaiava os xales de manhã. Não, senhor; eram engraçadas, e

tinham um certo pico original. Os ombros proporcionais e bonitos. Não contava trinta e

cinco anos, mas trinta e um; nasceu em 1822, na véspera da independência, tanto que o pai,

por brincadeira, entrou a chamá-la Ipiranga, e ficou-lhe esta alcunha entre as amigas.

Demais, lá estava em Santa Rita o assentamento de batismo.

Uma semana depois, recebeu Maria Olímpia outra carta anônima. Era mais longa e

explícita. Vieram outras, uma por semana, durante três meses. Maria Olímpia leu as

primeiras com algum aborrecimento; as seguintes foram calejando a sensibilidade. Não

havia dúvida que o marido demorava-se fora, muitas vezes, ao contrário do que fazia

dantes, ou saía à noite e regressava tarde; mas, segundo dizia, gastava o tempo no

Wallerstein ou no Bernardo, em palestras políticas. E isto era verdade, uma verdade de

cinco a dez minutos, o tempo necessário para recolher alguma anedota ou novidade, que

pudesse repetir em casa, à laia de documento. Dali seguia para o largo de São Francisco, e

metia-se no ônibus.

Tudo era verdade. E, contudo, ela continuava a não crer nas cartas. Ultimamente,

não se dava mais ao trabalho de as refutar consigo; lia-as uma só vez, e rasgava-as. Com o

tempo foram surgindo alguns indícios menos vagos, pouco a pouco, ao modo do

aparecimento da terra aos navegantes; mas este Colombo teimava em não crer na América.

Negava o que via; não podendo negá-lo, interpretava-o; depois recordava algum caso de

alucinação, uma anedota de aparências ilusórias, e nesse travesseiro cômodo e mole punha

a cabeça e dormia. Já então, prosperando-lhe o escritório, dava o Galvão partidas e jantares,

iam a bailes, teatros, corridas de cavalos. Maria Olímpia vivia alegre, radiante; começava a

ser um dos nomes da moda. E andava muita vez com a viúva, a despeito das cartas, a tal

ponto que uma destas lhe dizia: “Parece que é melhor não escrever mais, uma vez que a

senhora se regala numa comborçaria de mau gosto.” Que era comborçaria? Maria Olímpia

quis perguntá-lo ao marido, mas esqueceu o termo, e não pensou mais nisso.

Entretanto, constou ao marido que a mulher recebia cartas pelo correio. Cartas de

quem? Esta notícia foi um golpe duro e inesperado. Galvão examinou de memória as

pessoas que lhe freqüentavam a casa, as que podiam encontrá-la em teatros ou bailes, e

achou muitas figuras verossímeis. Em verdade, não lhe faltavam adoradores.

— Cartas de quem? repetia ele mordendo o beiço e franzindo a testa.

Durante sete dias passou uma vida inquieta e aborrecida, espiando a mulher e

gastando em casa grande parte do tempo. No oitavo dia, veio uma carta.

— Para mim? disse ele vivamente.

— Não; é para mim, respondeu Maria Olímpia, lendo o sobrescrito; parece letra de

Mariana ou de Lulu Fontoura…

Não queria lê-la; mas o marido disse que a lesse; podia ser alguma notícia grave.

Maria Olímpia leu a carta e dobrou-a, sorrindo; ia guardá-la, quando o marido desejou ver o

que era.

— Você sorriu, disse ele gracejando; há de ser algum epigrama comigo.

— Qual! é um negócio de moldes.

— Mas deixa ver.

— Para quê, Eduardo?

— Que tem? Você, que não quer mostrar, por algum motivo há de ser. Dê cá.

Já não sorria; tinha a voz trêmula. Ela ainda recusou a carta, uma, duas, três vezes.

Teve mesmo idéia de rasgá-la, mas era pior, e não conseguiria fazê-lo até o fim. Realmente,

era uma situação original. Quando ela viu que não tinha remédio, determinou ceder. Que

melhor ocasião para ler no rosto dele a expressão da verdade? A carta era das mais

explícitas; falava da viúva em termos crus. Maria Olímpia entregou-lha.

— Não queria mostrar esta, disse-lhe ela primeiro, como não mostrei outras que

tenho recebido e botado fora; são tolices, intrigas, que andam fazendo para… Leia, leia a

carta.

Galvão abriu a carta e deitou-lhe os olhos ávidos. Ela enterrou a cabeça na cintura,

para ver de perto a franja do vestido. Não o viu empalidecer. Quando ele, depois de alguns

minutos, proferiu duas ou três palavras, tinha já a fisionomia composta e um esboço de

sorriso. Mas a mulher, que o não adivinhava, respondeu ainda de cabeça baixa; só a

levantou daí a três ou quatro minutos, e não para fitá-lo de uma vez, mas aos pedaços, como

se temesse descobrir-lhe nos olhos a confirmação do anônimo. Vendo-lhe, ao contrário, um

sorriso, achou que era o da inocência, e falou de outra coisa.

Redobraram as cautelas do marido; parece também que ele não pôde esquivar-se a

um tal ou qual sentimento de admiração para com a mulher. Pela sua parte, a viúva, tendo

notícia das cartas, sentiu-se envergonhada; mas reagiu depressa, e requintou de maneiras

afetuosas com a amiga.

Na segunda ou terceira semana de agosto, Galvão fez-se sócio do Cassino

Fluminense. Era um dos sonhos da mulher. A seis de setembro fazia anos a viúva, como

sabemos. Na véspera, foi Maria Olímpia (com a tia que chegara de fora) comprar-lhe um

mimo: era uso entre elas. Comprou-lhe um anel. Viu na mesma casa uma jóia engraçada,

uma meia lua de diamantes para o cabelo, emblema de Diana, que lhe iria muito bem sobre

a testa. De Maomé que fosse; todo o emblema de diamantes é cristão. Maria Olímpia

pensou naturalmente na primeira noite do Cassino; e a tia, vendo-lhe o desejo, quis comprar

a jóia, mas era tarde, estava vendida.

Veio a noite do baile. Maria Olímpia subiu comovida as escadas do Cassino.

Pessoas que a conheceram naquele tempo, dizem que o que ela achava na vida exterior, era

a sensação de uma grande carícia pública, a distância; era a sua maneira de ser amada.

Entrando no Cassino, ia recolher nova cópia de admirações, e não se enganou, porque elas

vieram, e de fina casta.

Foi pelas dez horas e meia que a viúva ali apareceu. Estava realmente bela, trajada a

primor, tendo na cabeça a meia lua de diamantes. Ficava-lhe bem o diabo da jóia, com as

duas pontas para cima, emergindo do cabelo negro. Toda a gente admirou sempre a viúva

naquele salão. Tinha muitas amigas, mais ou menos íntimas, não poucos adoradores, e

possuía um gênero de espírito que espertava com as grandes luzes. Certo secretário de

 

 

 

legação não cessava de a recomendar aos diplomatas novos:

 

 

 

 

“Causez avec Mme. Tavares;

 

c’est adorable!”

 

 

 

Assim era nas outras noites; assim foi nesta.

 

 


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Nov
20
2008
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A Idéia do Ezequiel Maia - Machado de Assis

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LITERATURA BRASILEIRA

A Idéia do Ezequiel Maia

 

de Machado de Assis

Edição de Referência: Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

A idéia do Ezequiel Maia era achar um mecanismo que lhe permitisse rasgar o véu ou

revestimento ilusório que dá o aspecto material às cousas. Ezequiel era idealista. Negava

abertamente a existência dos corpos. Corpo era uma ilusão do espírito, necessária aos

fins práticos da vida, mas despida da menor parcela de realidade. Em vão os amigos lhe

ofereciam finas viandas, mulheres deleitosas, e lhe pediam que negasse, se podia, a

realidade de tão excelentes cousas. Ele lastimava, comendo, a ilusão da comida;

lastimava-se a si mesmo, quando tinha ante si os braços magníficos de uma senhora.

Tudo concepção do espírito; nada era nada. Esse mesmo nome de Maia não o tomou ele,

senão como um símbolo. Primitivamente, chamava-se Nóbrega; mas achou que os hindus

celebram uma deusa, mãe das ilusões, a que dão o nome de Maia, e tanto bastou para

que trocasse por ele o apelido de família.

A opinião dos amigos e parentes era que este homem tinha o juízo a juros naquele banco

invisível, que nunca paga os juros, e, quando pode, guarda o capital. Parece que sim;

parece também que ele não tocou de um salto o fundo do abismo, mas escorregando,

indo de uma restauração da cabala para outra da astrologia, da astrologia à quiromancia,

da quiromancia à charada, da charada ao espiritismo, do espiritismo ao niilismo idealista.

Era inteligente e lido; formara-se em matemáticas, e os professores desta ciência diziam

que ele a conhecia como gente.

Depois de largo cogitar, achou Ezequiel um meio: abstrair-se pelo nariz. Consistia em

fincar os olhos na extremidade do nariz, à maneira do faquir, embotando a sensibilidade

ao ponto de perder toda a consciência do mundo exterior. Cairia então o véu ilusório das

cousas; entrar-se-ia no mundo exclusivo dos espíritos. Dito e feito. Ezequiel metia-se em

casa, sentava-se na poltrona, com as mãos espalmadas nos joelhos, e os olhos na ponta

do nariz. Pela afirmação dele, a abstração operava-se em vinte minutos, e poderia fazerse

mais cedo, se ele não tivesse o nariz tão extenso. A inconveniência de um nariz

comprido é que o olhar, desde que transpusesse uma certa linha, exercia mais facilmente

a miserável função ilusória. Vinte minutos, porém, era o prazo razoável de uma boa

abstração. O Ezequiel ficava horas e horas, e às vezes dias e dias, sentado, sem se

mexer, sem ver nem ouvir; e a família (um irmão e duas sobrinhas) preferia deixá-lo

assim, a acordá-lo; não se cansaria, ao menos, na perpétua agitação do costume.

— Uma vez abstrato, dizia ele aos parentes e familiares, liberto-me da ilusão dos

sentidos. A aparência da realidade extingue-se, como se não fosse mais do que um fumo

sutil, evaporado pela substância das cousas. Não há então corpos; entesto com os

espíritos, penetro-os, revolvo-os, congrego-me, transfundo-me neles. Não sonhaste a

noite passada comigo, Micota?

— Sonhei, titio, mentia a sobrinha.

— Não era sonho; era eu mesmo que estava contigo; por sinal que me pedias as festas, e

eu prometi-te um chapéu, um bonito chapéu enfeitado de plumas…

— Isso é verdade, acudia a sobrinha.

— Tudo verdade, Micota; mas a verdade única e verdadeira. Não há outra; não pode

haver verdade contra verdade, assim como não há sol contra sol.

As experiências do Ezequiel repetiram-se durante seis meses. Nos dous primeiros meses,

eram simples viagens universais; percorria o globo e os planetas dentro de poucos

minutos, aniquilava os séculos, abrangia tudo, absorvia tudo, difundia-se em tudo. Saciou

assim a primeira sede da abstração. No terceiro mês, começou uma série de excursões

analíticas. Visitou primeiramente o espírito do padeiro da esquina, de um barbeiro, de um

coronel, de um magistrado, vizinhos da mesma rua; passou depois ao resto da paróquia,

do distrito e da capital, e recolheu quantidade de observações interessantes. No quarto

mês empreendeu um estudo que lhe comeu cinqüenta e seis dias: achar a filiação das

idéias, e remontar à primeira idéia do homem. Escreveu sobre este assunto uma extensa

memória, em que provou a todas as luzes que a primeira idéia do homem foi o círculo,

não sendo o homem simbolicamente outra cousa: — um círculo lógico, se o

considerarmos na pura condição espiritual; e se o tomarmos com o invólucro material, um

círculo vicioso. E exemplificava. As crianças brincam com arcos, fazem rodas umas com

as outras; os legisladores parlamentares sentam-se geralmente em círculo, e as

constantes alterações do poder, que tanta gente condena, não são mais do que uma

necessidade fisiológica e política de fazer circular os homens. Que são a infância e a

decrepitude, senão as duas pontas ligadas deste círculo da vida? Tudo isso lardeado de

trechos latinos, gregos e hebraicos, verdadeiro pesadelo, fruto indigesto de uma

inteligência pervertida. No sexto mês…

— Ah! meus amigos, o sexto mês é que me trouxe um achado sublime, uma solução ao

problema do senso moral. Para os não cansar; restrinjo-me ao exame comparativo que fiz

em dous indivíduos da nossa rua, o Neves do nº 25, e o Delgado. Sabem que eles ainda

são parentes.

E aí começou o Ezequiel uma narração tão extraordinária, que os amigos não puderam

ouvir sem algum interesse. Os dous vizinhos eram da mesma idade, mais ou menos,

quarenta e tantos anos, casados, com filhos, sendo que o Neves liquidara o negócio

desde algum tempo, e vivia das rendas, ao passo que o Delgado continuara o negócio, e

justamente falira três semanas antes.

— Vocês lembram-se ter visto o Delgado entrar aqui em casa um dia muito triste?

Ninguém se lembrava, mas todos disseram que sim.

— Desconfiei do negócio, continuou o Ezequiel, abstraí-me, e fui direito a ele. Achei-lhe a

consciência agitada, gemendo, contorcendo-se; perguntei-lhe o que era, se tinha

praticado alguma morte, e respondeu-me que não; não praticara morte nem roubo, mas

espancara a mulher, metera-lhe as mãos na cara, sem motivo, por um assomo de cólera.

Cólera passageira, disse-lhe, e uma vez que façam as pazes… — Estão feitas, acudiu ele;

Zeferina perdoou-me tudo, chorando; ah! doutor, é uma santa mulher! — E então? — Mas

não posso esquecer que lhe dei, não me perdôo isto; sei que foi na cegueira da raiva,

mas não posso perdoar-me, não posso. E a consciência tornou a doer-lhe, como a

princípio, inquieta, convulsa. Dá cá aquele livro, Micota.

Micota trouxe-lhe o livro, um livro manuscrito, in folio, capa de couro escuro e lavrado. O

Ezequiel abriu-o na página 140, onde o nome do Delgado estava escrito com esta nota:

— “Este homem possui o senso moral”. Escrevera a nota, logo depois daquele episódio; e

todas as experiências futuras não vieram senão confirmar-lhe a primeira observação.

— Sim, ele tem o senso moral, continuou o Ezequiel. Vocês vão ver se me enganei. Dias

depois, tendo-me abstraído, fui logo a ele, e achei-o na maior agitação. — Adivinho,

disse-lhe; houve outra expansão muscular, outra correção… Não me respondeu nada; a

consciência mordia-se toda, presa de um furor extraordinário. Como se apaziguasse de

quando em quando, aproveitei os intervalos para teimar com ele. Disse-me então que

jurara falso para salvar um amigo, ato de covardia e de impiedade. Para atenuá-lo,

lembrava-se dos tormentos da véspera, da luta que sustentara antes de jazer a promessa

de ir jurar falso; recordava também a amizade antiga ao interessado, os favores

recebidos, uns de recomendação, outros de amparo, alguns de dinheiro; advertia na

obrigação de retribuir os benefícios, na ridicularia de uma gratidão teórica, sentimental, e

nada mais. Quando ele amontoava essas razões de justificação ou desculpa, é que a

consciência parecia tranqüila; mas, de repente, todo o castelo voava a um piparote desta

palavra: “Não devias ter jurado falso”. E a consciência revolvia-se, frenética, desvairada,

até que a própria fadiga lhe trazia algum descanso.

Ezequiel referiu ainda outros casos. Contou que o Delgado, por sugestões de momento,

faltara algumas vezes à verdade, e que, a cada mentira, a consciência raivosa dava

sopapos em si mesma. Enfim, teve o desastre comercial, e faliu. O sócio, para abrandar a

inclemência dos fados, propôs-lhe um arranjo de escrituração. Delgado recusou a pés

juntos; era roubar os credores, não devia fazê-lo. Debalde o sócio lhe demonstrava que

não era roubar os credores, mas resguardar a família, cousa diferente. Delgado abanou a

cabeça. Não e não; preferia ficar pobre, miserável, mas honrado; onde houvesse um

recanto de cortiço e um pedaço de carne-seca, podia viver. Demais, tinha braços. Vieram

as lágrimas da mulher, que lhe não pediu nada mas trouxe as lágrimas e os filhos. Nem

ao menos as crianças vieram chorando; não, senhor; vieram alegres, rindo, pulando

muito, sublinhando assim a crueldade da fortuna. E o sócio, ardilosamente ao ouvido: —

Ora vamos; veja você se é lícito trair a confiança destes inocentes. Veja se… Delgado

afrouxou e cedeu.

— Não, nunca me há de esquecer o que então se passou naquela consciência, continuou

o Ezequiel; era um tumulto, um clamor, uma convulsão diabólica, um ranger de dentes,

uma cousa única. O Delgado não ficava quieto três minutos; ia de um lado para outro,

atônito, fugindo a si mesmo. Não dormiu nada a primeira noite. De manhã saiu para andar

à toa; pensou em matar-se; chegou a entrar em uma casa de armas, à Rua dos Ourives,

para comprar um revólver, mas advertiu que não tinha dinheiro, e retirou-se. Quis deixarse

esmagar por um carro. Quis enforcar-se com o lenço. Não pensava no código; por

mais que o revolvesse, não achava lá a idéia da cadeia. Era o próprio delito que o

atormentava. Ouvia vozes misteriosas que lhe davam o nome de falsário, de ladrão; e a

consciência dizia-lhe que sim, que ele era um ladrão e um falsário. Às vezes pensava em

comprar um bilhete de Espanha, tirar a sorte grande, convocar os credores, confessar

tudo, e pagar-lhes integralmente, com juro, um juro alto, muito alto, para puni-lo do

crime… Mas a consciência replicava logo que era um sofisma, que os credores seriam

pagos, é verdade, mas só os credores. O ato ficava intacto. Queimasse ele os livros e

dispersasse as cinzas ao vento, era a mesma cousa; o crime subsistia. Assim passou três

noites, três noites cruéis, até que no quarto dia, de manhã, resolveu ir ter com o Neves e

revelar-lhe tudo.

— Descanse, titio, disse-lhe uma das sobrinhas, assustada com o fulgor dos olhos do

Ezequiel.

Mas o Ezequiel respondeu que não estava cansado, e contaria o resto.

O resto era estupendo. O Neves lia os jornais no terraço, quando o Delgado lhe apareceu.

A fisionomia daquele era tão bondosa, a palavra com que o saudou — “Anda cá, Juca!”

vinha tão impregnada da velha familiaridade, que o Delgado esmoreceu. Sentou-se ao pé

dele, acanhado, sem força para lhe dizer nem lhe pedir nada, um conselho, ou, quando

menos, uma consolação. Em que língua narraria o delito a um homem cuja vida era um

modelo, cujo nome era um exemplo? Viveram juntos; sabia que a alma do Neves era

como um céu imaculado, que só interrompia o azul para cravejá-lo de estrelas. Estas

eram as boas palavras que ele costumava dizer aos amigos. Nenhuma ação que o

desdourasse. Não espancara a mulher, não jurara falso, não emendara a escrituração,

não mentiu, não enganou ninguém.

— Que tem você? perguntou o Neves.

— Vou contar-lhe uma cousa grave, explodiu o Delgado; peço-lhe desde já que me

perdoe.

Contou-lhe tudo. O Neves, que a princípio o ouvira com algum medo, por ele lhe ter

pedido perdão, depressa respirou; mas não deixou de reprovar a imprudência do

Delgado. Realmente, onde tinha ele a cabeça para brincar assim com a cadeia? Era

negócio grave; urgia abafá-lo, e, em todo caso, estar alerta. E recordava-lhe o conceito

em que sempre teve o tal sócio. — “Você defendia-o então; e aí tem a bela prenda. Um

maluco!” O Delgado, que trazia consigo o remorso, sentiu incutir-se-lhe o terror; e, em vez

de um remédio, levou duas doenças.

“Justos céus! exclamou consigo o Ezequiel, dar-se-á que este Neves não tenha o senso

moral?”

Não o deixou mais. Esquadrinhou-lhe a vida; talvez alguma ação do passado, alguma

cousa… Nada; não achou nada. As reminiscências do Neves eram todas de uma vida

regular, metódica, sem catástrofes, mas sem infrações. O Ezequiel estava atônito. Não

podia conciliar tanta limpeza de costumes com a absoluta ausência de senso moral. A

verdade, porém, é que o contraste existia. Ezequiel ainda advertiu na sutileza do

fenômeno e na conveniência de verificá-lo bem. Dispôs-se a uma longa análise. Entrou a

acompanhar o Neves a toda a parte, em casa, na rua, no teatro, acordado ou dormindo,

de dia ou de noite.

O resultado era sempre o mesmo. A notícia de uma atrocidade deixava-o interiormente

impassível; a de uma indignidade também. Se assinava qualquer petição (e nunca

recusou nenhuma) contra um ato impuro ou cruel, era por uma razão de conveniência

pública, a mesma que o levava a pagar para a Escola Politécnica, embora não soubesse

matemáticas. Gostava de ler romances e de ir ao teatro; mas não entendia certos lances

e expressões, certos movimentos de indignação, que atribuía a excessos de estilo.

Ezequiel não lhe perdia os sonhos, que eram, às vezes, extraordinários. Este, por

exemplo: sonhou que herdara as riquezas de um nababo, forjando ele mesmo o

testamento e matando o testador. De manhã, ainda na cama, recordou todas as

peripécias do sonho, com os olhos no teto, e soltou um suspiro.

Um dia, um fâmulo do Neves, andando na rua, viu cair uma carteira do bolso de um

homem, que caminhava adiante dele, apanhou-a e guardou-a. De noite, porém, surgiu-lhe

este caso de consciência: — se um caído era o mesmo que um achado. Referiu o negócio

ao Neves, que lhe perguntou, antes de tudo, se o homem vira cair a carteira; sabendo que

não, levantou os ombros. Mas, conquanto o fâmulo fosse grande amigo dele, o Neves

arrependeu-se do gesto, e, no dia seguinte, comendou-lhe a entrega da carteira; eis as

circunstâncias do caso. Indo de bond, o condutor esqueceu-se de lhe pedir a passagem;

Neves, que sabia o valor do dinheiro, saboreou mentalmente esses duzentos réis caídos;

mas advertiu que algum passageiro poderia ter notado a falta, e, ostensivamente, por

cima da cabeça de outros, deu a moeda ao condutor. Uma idéia traz outra; Neves

lembrou-se que alguém podia ter visto cair a carteira e apanhá-la o fâmulo; foi a este, e

compeliu-o a anunciar o achado. “A consideração pública, Bernardo, disse ele, é a

carteira que nunca se deve perder.”

Ezequiel notou que este adágio popular — ladrão que furta a ladrão tem cem anos de

perdão — estava incrustado na consciência do Neves, e parecia até inventado por ele. Foi

o único sentimento de horror ao crime, que lhe achou; mas, analisando-o, descobriu que

não era senão um sentimento de desforra contra o segundo roubado, o aplauso do logro,

uma consolação no prejuízo, um antegosto do castigo que deve receber todo aquele que

mete a mão na algibeira dos outros.

Realmente, um tal contraste era de ensandecer ao homem mais ajuizado do universo. O

Ezequiel fez essa mesma reflexão aos amigos e parentes; acrescentou que jurara aos

seus deuses achar a razão do contraste, ou suicidar-se. Sim, ou morreria, ou daria ao

mundo civilizado a explicação de um fenômeno tão estupendo como a contradição da

consciência do Neves com as suas ações exteriores… Enquanto ele falava assim, os

olhos chamejavam muito. Micota, a um sinal do pai, foi buscar à janela uma das

quartinhas d’água, que ali estavam ao fresco, e trouxe-a a Ezequiel. Profundo Ezequiel!

tudo entendeu, mas aceitou a água, bebeu dous ou três goles, e sorriu para a sobrinha. E

continuou dizendo que sim, senhor, que acharia a razão, que a formularia em um livro de

trezentas páginas…

— Trezentas páginas, estão ouvindo? Um livro grosso assim…

E estendia três dedos. Depois descreveu o livro. Trezentas páginas, com estampas, uma

fotografia da consciência do Neves e outra das suas ações. Jurava que ia mandar o livro

a todas as academias do universo, com esta conclusão em forma de epígrafe: “Há

virtualmente um pequeno número de gatunos, que nunca furtaram um par de sapatos”.

— Coitado! diziam os amigos descendo as escadas. Um homem de tanto talento!

Núcleo Pesquisas em Informática. Literatura e Lingüística

Written by kiboa in: Cultura | Tags:, , , , , , ,

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